Sun 22 Apr 2007
‘Passei um bom tempo pensando que Jimi fosse meu pai’, diz irmão de Hendrix
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Tags: paul_mccartney
Leon Hendrix veio ao Brasil para divulgar roupas com desenhos feitos pelo guitarrista.
Coleção original reúne 46 pinturas avaliadas em US$ 7 milhões.
Lígia Nogueira Do G1, em São Paulo
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ALTERA O
TAMANHO DA LETRA
G1
O irmão de Jimi Hendrix, Leon, em São Paulo.
(Foto: Divulgação)
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Final dos anos 60. Escalado para um festival em Miami que acaba de ser cancelado, Jimi Hendrix e outros músicos empreendem uma maratona de três dias de farra e bebedeira em um hotel da cidade. Sem dinheiro para pagar as contas, a lenda da guitarra deixa todos os seus pertences, incluindo uma série de desenhos coloridos, com o gerente do estabelecimento.
Corta para 2004. Quarenta e seis desenhos de autoria de Hendrix feitos com caneta hidrocor são encontrados em um depósito no sul dos EUA. A coleção é avaliada em US$ 7 milhões. Um empresário adquire o direito de reproduzir três dos desenhos, que agora estampam calças, camisas e jaquetas. Um jeans pode chegar a US$ 1.200. “Tudo fabricado no Brasil”, diz Thomas Ford, o responsável pela empreitada.
E agora, vestindo um casaco de pele até os joelhos, Leon Hendrix, irmão mais novo do guitarrista, está no país para divulgar essa coleção. Entre um gole e outro no drinque preparado com vodca e suco de laranja, Leon falou com exclusividade ao G1 sobre a infância e a juventude ao lado de um dos maiores guitarristas do mundo, além de cinema, download, drogas e rock and roll.
O encontro termina ao som de “Hey Joe”, um clássico de Hendrix, tocado ao vivo. “Isso não é Rappa”, avisa o irmão, sem fazer mais comentários sobre a banda de Falcão. Confira a conversa a seguir.
G1 - Você consegue se lembrar de quando Jimi começou a desenhar?
Leon Hendrix - Sim, quando ele era criança, ele estava sempre fazendo coisas desse tipo, bem antes de começar a tocar guitarra, com 12 ou 13 anos. Ele ainda não sabia que era um músico, desenhava para expressar suas emoções.
G1 - Com que freqüência ele desenhava?
Hendrix - O tempo todo. Na verdade, o motivo de eu ser um bom artista hoje é que, quando éramos crianças, eu o perturbava tanto que ele colocou uma corrente em meu pulso e me fez desenhar uma noz milhares de vezes. Eu fiquei tão bom nisso que fui chamado para trabalhar como desenhista logo depois.

Leon Hendrix fez uma performance ao final da entrevista. (Foto: Divulgação)
G1 - Como foi a infância de vocês?
Hendrix - Passei um bom tempo pensando que Jimi fosse o meu pai. Porque nosso pai foi muito ausente por causa de problemas com a bebida, passava três ou quatro dias sem aparecer em casa. Ele deixou Jimi cuidando de mim, e era ele quem me dava banho, comida, me fazia sanduíches de queijo. As mulheres da vizinhança começaram a cuidar da gente. Quando tínhamos fome, sempre havia alguém que nos chamava para o jantar, gritando ‘ei, seus garotos magrelos, o frango está na mesa!’. E elas brigavam com meu pai quando ele chegava bêbado em casa.
G1 - E sua mãe?
Hendrix - Nossa mãe morreu aos 27 anos. Jimi tinha 14 e eu tinha 8. Meu pai se casou com ela quando ela tinha 16 e os dois se tornaram alcoólatras. Ela não sobreviveu. O álcool só leva a três lugares: centros de reabilitação, cadeia ou morte.
G1 - Vocês ouviam música juntos?
Hendrix - Sim, bastante. Ouvíamos Muddy Waters, Chuck Berry. Os discos eram gigantes, pesados mesmo, de 78 rotações. Jimi amava Elvis Presley.
G1 - Você se lembra de quando ele começou a tocar?
Hendrix - Claro. Nós éramos bem pobres. Fazíamos bicos aqui e ali, e uma mulher nos pediu para limpar a garagem dela. Achamos um violão bem pequeno, uma espécie de cavaquinho, que só tinha uma corda. Ele conseguiu tirar um som: “Louie, Louie” [canta a música], coisas assim. Aos 15 anos, Jimi ficou tão bom na guitarra que todo mundo queria que ele tocasse. Mas naquele tempo não havia guitarras para canhotos. Ele ia aos testes com as bandas e os músicos achavam que ele não conseguiria tocar. Mas ele virava a guitarra de ponta-cabeça e tocava tão bem que era contratado no ato.
Jimi era tão musical que ele ia dormir com o violão e acordava com ele sobre o peito. Logo depois de escovar os dentes ele já começava a tocar. Meu pai ficava furioso, dizia ‘Jimi, deixa essa droga para lá e vai pra escola’. Jimi dizia ‘ok, pai’. E ia tocando no caminho inteiro para lá.
G1 - Você viajava com ele nas turnês, certo? Mas não foi a Woodstock.
Hendrix - Não, eu estava na cadeia. Eu fazia exército na época, e quando eu estava lá Jimi começou a tocar “Star spangled banner”. E todo mundo me odiava porque eles sabiam que eu era irmão dele. Eles achavam a música ultrajante. Me deram tarefas duras para cumprir, porque eu também tinha muitos amigos por ser irmão de Jimi e eles tentaram me separar, achando que eu seria um exemplo para os outros soldados. Mas meu comportamento era péssimo e eu acabei sendo preso.
G1 - Miles Davis era um dos grandes músicos que admiravam Hendrix. Você o conheceu?
Hendrix - Sim, conheci. Eles eram muito amigos. Na verdade, há diversas gravações dos dois tocando juntos. Com Paul McCartney também. Eram bons amigos. Mas há muita controvérsia quanto aos direitos autorais. Minha irmã adotiva, que é uma sacana do inferno, quer controlar tudo, não compartilha nada com os netos dos músicos. Eles acabaram deixando passar em respeito ao Jimi.
G1 - E quanto à internet? O que você acha da cultura do download?
Hendrix - Acredito que música pertence a todos. Sabe como o Jimi aprendeu a tocar? Ouvindo Chuck Berry e todas as velhas bandas. Foi como ele aprendeu e como os Beatles aprenderam. Todo mundo que toca hoje começou ouvindo outra pessoa. E os próximos grandes músicos do mundo vão aprender ouvindo gente que veio antes. Música pertence ao povo.
G1 - Você começou a tocar há oito anos. É verdade que Jimi falou com você em um sonho?
Hendrix - Eu não queria tocar porque meu pai sempre brigava com Jimi por causa disso. Ele achava que Jimi nunca fosse conseguir. Estava sempre reclamando. ‘Coloca essa coisa de lado e vá trabalhar com suas mãos’, ele dizia. E Jimi respondia ‘mas eu trabalho com as minhas mãos!’. Quando Jimi começou a tocar, meu pai me disse: ‘nunca tente tocar. Porque já tenho um guitarrista estúpido e não preciso de mais um’. E eu fiquei psicologicamente bloqueado. Depois de 30 anos, sonhei com Jimi. Ele disse ‘Leon, você já perdeu um processo na justiça, teve de dar tudo o que eu deixei. O melhor que você tem a fazer é tocar. Vai em frente.’ E foi o que eu fiz.
G1 - Você ainda sonha com ele?
Hendrix - Sempre, e é muito bom. Ouço a música que vem do céu. Tão linda, tão pura. Mas não consigo reproduzir aqui na Terra. É como se ela pertencesse a outro mundo. Tento voltar a dormir para sonhar, mas simplesmente não dá para capturar o sonho. É tão linda que não é daqui, é música do paraíso.
G1 - Qual é o papel da James Marshall Hendrix Foundation, da qual você é o presidente?
Hendrix - O que fazemos é levantar dinheiro para ajudar crianças com problemas. Especialmente aquelas que ouvem na escola que são estúpidas e burras. As pessoas ainda não perceberam que essas instituições não são criativas. E essas crianças muitas vezes são criativas de um modo que a academia não reconhece. Com Jimi era assim. ‘Como é que você não consegue entender matemática?’, diziam. Mas ele lia as partituras. Então pegamos essas crianças e desenvolvemos seu potencial com instrumentos e aulas de música.
G1 - Você pretende se apresentar no Brasil?
Hendrix - Sim, estou lançando meu terceiro álbum por aqui. Vamos voltar em junho para uma série de shows. Gostaria de fazer um filme sobre a vida de Jimi. Vou deixar o meu cabelo crespo igual ao dele. E aí para eu tocar guitarra com a mão esquerda é só inverter a fita (risos). Estou pensando em chamar Lenny Kravitz ou talvez Andre 3000 (do Outkast) para o papel principal. Quero fazer um bom filme, que seja a bíblia de Jimi Hendrix. Um épico.
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